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Já há muito tempo todos os meus esforços bloguísticos foram dirigidos ao blog da minha companhia. Agora resolvi avisar alguém que entre aqui inadvertidamente, nesse blog abandonado e poeirento. Ainda o bloguicidarei, quando tiver paciência de resgatar um ou outro texto do qual eu não tenha outro registro.
Abraços, e nos encontramos no blog do Núcleo 1408.
30 de Outubro de 2008
dar ao verso uma dignidade de tambores
cortar a parte doente da planta
renascer das próprias cinzas
mas
para se tornar percussionista
é preciso dar aos braços resistência
para que ela cresça novamente
é preciso de água e de sol
e é preciso ter morrido
pra formar-se um novo ovo
então
tocar tendo a dor como regente
abrir estradas para caminhar o sol
morrer e deitar fogo à própria pira.
Rui Xavier
23 de Outubro de 2008 eu o olho com atenção para
não perder nenhum detalhe
o que já em si é desafio
eu tento manter firmeza
os olhos gelados me humilham
fuzilam primeiro de raiva
da minha leda arrogância
depois se mostram para mim
em todo brilho da prata
e no seu mínimo relevo
mas eu permaneço olhando
mesmo que nada entenda
permanecerei olhando
R.X
RIVIERA ou O FUTURO DA CLASSE OPERÁRIA
nas mesas desse bar
onde ouve-se muito a música de quarenta anos atrás
e onde muito discutiu-se o futuro da classe operária
há quarenta anos atrás
pode-se comer um excelente cheese-burger
por um preço bastante razoável
e beber todas as marcas de cerveja
nas mesas desse bar
onde há quarenta anos atrás
discutiu-se muito o futuro da classe operária
RuixavieR - 1/4/2004
BAKUNIN
já não é possível correr o mundo a pé
alimentando revoluções inúteis
só com o sangue dos pulmões
(e das palavras)
e se fosse não seria
possível acreditar nelas.
a hipótese do paraíso
que sustentou teus anos na Sibéria
está mais longe de nós que de ti.
teus dentes doados ao escorbuto
perderam finalmente sua mordida.
ninguém mais tem a tua coragem
a tua estupidez e o teu talento
para o inacreditável.
morrer, morre-se muito.
saber o por quê, ninguém mais sabe.
R.X - 30 de setembro de 2008
NÓS
você é perfume e é música,
eu, coitado, sou poesia.
você tem o dom do que exala,
do que exalta, que preenche,
refestela.
eu sou este alinhar as linhas,
condensar a coisa toda,
ser oblíquo.
o cheiro e a melodia
são ambos inescapáveis:
somos todos só sentidos
estando diante deles.
mas o caso da poesia
é sempre pedir parada,
é sempre pedir palavra,
é sempre pedir silêncio.
versos todos alinhados
em retas riscas exatas
esperam deciframento.
a música (e o perfume)
são o desfraldamento
de algo que ali se abriga.
eles tem (e você)
a coisa do dominante
de domar a atmosfera;
não são tomados da espera
congelada das palavras
(das palavras da poesia)
detalhes e monumentos.
momentos e eternidades.
você é perfume e é música,
eu, precário, sou poesia.
por isso eu prefiro você,
prefiro o cheiro,
a melodia,
o grito.
Rui Xavier
27 de setembro de 2008
22 de Setembro de 2008
a insônia, como qualquer
ameaça de morte,
torna-me os sentidos excitados;
do cigarro congratulam-se os pulmões
como se fora o último cigarro,
e entre as pernas o pau
se entesa até o desespero,
como se aquela mulher fora a primeira.
como qualquer ameaça de morte,
a insônia, sua condição trêmula,
renova o sentido das coisas;
do café o calor e do amanhecer
a sua presença gélida e enevoada,
do amor sua dor física, latejante, deliciosa,
do estar vivo a responsabilidade
para com esta finita máquina corpórea
sobre a qual ninguém mais é responsável.
esta específica ameaça de morte,
a insônia,
como qualquer ameaça de morte....
Rui Xavier